quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Chuva Oblíqua - VI




















O maestro sacode a batuta,
E lânguida e triste a música rompe...
Lembra-me a minha infância, aquele dia
Em que eu brincava ao pé dum muro de quintal,
Atirando-lhe com uma bola que tinha dum lado
O deslizar de um cão verde, e do outro lado
Um cavalo azul a correr com um jockey amarelo...

Prossegue a música, e eis na minha infância
De repente entre mim e o maestro, muro branco,
Vai e vem a bola, ora um cão verde,
Ora um cavalo azul com um jockey amarelo...

Todo o teatro é o meu quintal, a minha infância
Está em todos os lugares, e a bola vem a tocar música
Uma música triste e vaga que passeia no meu quintal
Vestida de cão verde, tornando-se jockey amarelo...
(Tão rápida gira a bola entre mim e os músicos...)

Atiro-a de encontro à minha infância e ela
Atravessa e o teatro todo que está aos meus pés
A brincar com um jockey amarelo e um cão verde
E um cavalo azul que aparece por cima do muro
Do meu quintal... E a música atira com bolas
À minha infância... E o muro do quintal é feito de gestos
De batuta e rotações confusas de cães verdes
E cavalos azuis e jockeys amarelos...
Todo o teatro é um muro branco de música
Por onde um cão verde corre atrás da minha saudade
Da minha infância, cavalo azul com um jockey amarelo...

E dum lado para o outro, da direita para a esquerda,
Donde há árvores e entre os ramos ao pé da copa
Com orquestras a tocar música,
Para onde há filas de bolas na loja onde a comprei
E o homem da loja sorri entre as memórias da minha infância...

E a música cessa como um muro que desaba,
A bola rola pelo despenhadeiro dos meus sonhos interrompidos,
E do alto dum cavalo azul, o maestro, jockey amarelo tornando-se
Agradece, pousando a batuta em cima da fuga dum muro,
E curva-se, sorrindo, com uma bola branca em cima da cabeça,
Bola branca que lhe desaparece pelas costas abaixo...

Fernando Pessoa

A Água Desce a Ladeira


A água da chuva desce a ladeira.
É uma água ansiosa.
Faz lagos e rios pequenos, e cheira
A terra a ditosa.

Há muitos que contam a dor e o pranto
De o amor os não qu'rer...
Mas eu, que também não os tenho, o que canto
É outra coisa qualquer.


Fernando Pessoa (http://www.pensador.info/)

domingo, 8 de fevereiro de 2009

"Os 3 (+1) da vida airada"


Apesar de Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis serem pessoas bastante distintas, têm algo em comum: o seu "criador".
Alberto Caeiro (o Mestre tranquilo da sensação) nasceu em Lisboa, em 1889, e viveu no campo, morrendo em 1915. Tinha estatura média. Autor d'"O Guardador de Rebanhos", este heterónimo foi o riador do sensacionismo, recusa a introspecção e a subjectividade, identifica-se com a Natureza, é-lhe indiferente o passado e o futuro, é lírico, instintivo, ingénuo, inculto...
Álvaro de Campos (o filho indisciplinado da sensação) nasceu em Tavira, em 1890, formou-se em Glasgow entre outros feitos e não se sabe a data da sua morte. Tinha 1,75m de altura e um pouco tendente a curvar-se. A sua obra distingue-se em três fases: 1ª - decadentista; 2ª - entusiasta/futurista; 3ª - intimista. Sensacionista, conhecendo Caeiro como Mestre, fuga da recordação, fragmentação do eu, cepticismo, ironia, modernista, predomínio da emoção espontânea e torrencial...
Ricardo Reis (o poeta da autodisciplina) nasceu no Porto, em 1887, exercia medicina no Brasil e não se sabe a data da sua morte. Era um pouco mais baixo que Caeiro, mais forte e mais seco. Discíplo de Caeiro, faz dos gregos o modelo da sabedoria, reflecte sobre o fluir do tempo, faz o elogio do epicurismo e do estoicismo, tem medo da velhice e da morte...

Recentemente descobri mais um heterónimo para além destes três... Chama-se Bernardo Soares... É considerado um semi-heterónimo porque, como o seu próprio criador explica "não sendo a personalidade a minha, é, não diferente da minha, mas uma simples mutilação dela. Sou eu menos o raciocínio e afectividade."

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

o valor das coisas


Ode marítima

Sozinho, no cais deserto, a esta manhã de Verão,
Olho prò lado da barra, olho prò Indefinido,
Olho e contenta-me ver,
Pequeno, negro e claro, um paquete entrando.
Vem muito longe, nítido, clássico à sua maneira.
Deixa no ar distante atrás de si a orla vã do seu fumo.
Vem entrando, e a manhã entra com ele, e no rio,
Aqui, acolá, acorda a vida marítima,
Erguem-se velas, avançam rebocadores,
Surgem barcos pequenos detrás dos navios que estão no porto.
Há uma vaga brisa.Mas a minh'alma está com o que vejo menos.
Com o paquete que entra,
Porque ele está com a Distância, com a Manhã,
Com o sentido marítimo desta Hora,
Com a doçura dolorosa que sobe em mim como uma náusea,
Como um começar a enjoar, mas no espírito.

Olho de longe o paquete, com uma grande independência de alma,
E dentro de mim um volante começa a girar, lentamente.

Os paquetes que entram de manhã na barra
Trazem aos meus olhos consigo
O mistério alegre e triste de quem chega e parte.
Trazem memórias de cais afastados e doutros momentos
Doutro modo da mesma humanidade noutros pontos.
Todo o atracar, todo o largar de navio,
É - sinto-o em mim como o meu sangue -
Inconscientemente simbólico, terrivelmente
Ameaçador de significações metafísicas
Que perturbam em mim quem eu fui...

Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!
E quando o navio larga do cais
E se repara de repente que se abriu um espaço
Entre o cais e o navio,
Vem-me, não sei porquê, uma angústia recente,
Uma névoa de sentimentos de tristeza
Que brilha ao sol das minhas angústias relvadas
Como a primeira janela onde a madrugada bate,
E me envolve com uma recordação duma outra pessoa
Que fosse misteriosamente minha.
Álvaro de Campos - Heterónimo

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Entretanto...

... mais um mês se passou! Não sei bem o que escrever. Talvez escrevesse sobre o que me vai cá dentro, ou mesmo sobre o tempo... Mas não... Isso são coisas banais, que não interessam a nunguém.
Vou escrever, então sobre Português. Sim, acho que é uma boa opção!
Ainda não tive testes, nem os quero. Temos lido "Exercícios de Estilo", diga-se de passagem bastante divertidos/aborrecidos! Divertidos porque contam o mesmo episódio de vários pontos de vista e com diversos temas; Aborrecidos porque fala-se sempre da mesma coisa! Mas não, também não é sobre os "Exercícios de Estilo" que vou falar!
Ah! Já sei! Vou falar sobre Fernando Pessoa e seus heterónimos!

Tenho gostado bastante da poesia de Pessoa, pessoalmente dos poemas que pus no meu blog.
Penso que tem corrido bem esta primeira fase tem corrido bem. Apesar da indecisão acerca do elemento sobre o qual iria trabalhar, o restante trabalho tem fluido.
Não é pelo facto de Pessoa falar muito da água, mas acho que tenho conseguido atingir os meus objectivos neste blog.

Veremos como correrá a próxima temporada!

sábado, 31 de janeiro de 2009

o espelho dos pensamentos

Bóiam leves, desatentos,
Meus pensamentos de mágoa,
Como, no sono dos ventos,
As algas, cabelos lentos
Do corpo morto das águas.

Bóiam como folhas mortas
À tona de águas paradas.
São coisas vestindo nadas,
Pós remoinhando nas portas
Das casas abandonadas.

Sono de ser, sem remédio,
Vestígio do que não foi,
Leve mágoa, breve tédio,
Não sei se pára, se flui;
Não sei se existe ou se dói.







Tudo que faço ou medito
Fica sempre na metade.
Querendo, quero o infinito.
Fazendo, nada é verdade.

Que nojo de mim fica
Ao olhar para o que faço!
Minha alma é lúcida e rica,
E eu sou um mar de sargaço -

Um mar onde bóiam lentos
Fragmentos de um mar de além...
Vontades ou pensamentos?
Não o sei e sei-o bem.

Fernando Pessoa - Ortónimo